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18/05/2012 - 11h04 / Atualizada 18/05/2012 - 11h09

Raio-X da violência de torcidas indica que Brasil viu morrer em 2011 total da Itália na história

Bruno Freitas
Do UOL, em São Paulo

Um estudo acadêmico recentemente concluído esmiúça em números uma sensação que já se faz presente há algum tempo nas páginas de noticiário esportivo do país. Nunca aconteceram tantos assassinatos ligados ao universo da violência de torcidas como nos últimos anos. O levantamento oferece a comparação alarmante de que o futebol brasileiro registrou em 2011 um patamar de mortes que praticamente corresponde ao total levantado no histórico da Itália.

O trabalho assinado pelo jornalista André Luís Nery após quatro anos de pesquisas indica que vinte torcedores foram mortos no país em confrontos dentro do universo das torcidas no ano passado. Com tradição em futebol semelhante à brasileira, e cenário de rivalidades de arquibancada igualmente complexo, a Itália registra na história 24 assassinatos.

  • Reprodução

    O livro "Violência no Futebol: Mortes de torcedores na Argentina e no Brasil" tem 223 páginas e foi publicado pela Editora Multifoco. A obra é resultado de quatro anos de pesquisa durante o Doutorado no Programa de Pós-Graduação em Integração da América Latina da Universidade de São Paulo

"Em um ano se matou quase o índice total do futebol italiano na história, justamente no ano passado, praticamente o mesmo número. A última morte lá foi em 2008. E quando isso acontece, geralmente o campeonato é parado, toda a opinião publica se envolve, é uma questão gravíssima para o país, ao contrário do que costuma acontecer aqui", afirma Nery, autor do livro Violência no Futebol: Mortes de torcedores na Argentina e no Brasil.

Entre 1992 e março de 2012 foram identificadas 133 mortes de torcedores no Brasil [a estatística já poderia ser atualizada em razão de incidentes das últimas semanas]. Esse número total representa uma média superior a seis mortes por ano no período analisado.

Os últimos anos foram particularmente os mais violentos, com 14 mortes em 2007, nove em 2008, 11 em 2009 e 19 em 2010. Por fim, 2011 registrou o recorde de mortes no do gênero no país em um único ano, segundo o levantamento, com 20 casos de assassinatos comprovados dentro do universo de torcidas.

O livro de André Nery tem como foco a violência entre torcedores no futebol argentino e brasileiro. A obra apresenta os casos de mortes que são relacionados a enfrentamentos entre torcidas e também os incidentes ocorridos em estádios que terminaram com vítimas. Além disso, foi traçada uma comparação com a realidade de Inglaterra, Espanha e Itália, países em que o futebol tem apelo social e grau elevado distúrbios.

Considerando os casos de assassinato listados pelo livro, a média de idade das vítimas é de 23,05 anos. Mais da metade das mortes (79, ou 59,4%) foi ocasionada através de armas de fogo. O levantamento ainda aponta que, entre da violência no futebol brasileiro, 123 são homens, ou 96,1% do total.

O estudo avalia que a violência está praticamente controlada dentro de estádios e em suas imediações. O problema migrou para deslocamentos de torcidas e encontros agendados para brigas em pelotão.

DESCENTRALIZAÇÃO LEVA VIOLÊNCIA A GOIÁS E ALAGOAS

De acordo com o autor André Nery, o mapa de incidências dos crimes ligados às torcidas sugere uma recente descentralização dos assassinatos, que inicialmente eram concentrados no eixo Rio-São Paulo. O jornalista afirma que a rivalidade entre facções de Cruzeiro e Atlético em Minas Gerais é das mais preocupantes, assim como casos em Goiás e em Alagoas.

JOVENS MORTOS

  • 23,05 ANOS

     

é a idade média das vítimas da violência entre torcidas no Brasil, nos incidentes registrados pelo livro entre 1992 e 2012

"Alguns estados já superam Rio-São Paulo em numero de mortos. Acontece muita morte não vinculada ao jogo em si. Por exemplo, na segunda-feira, dia que não tem jogo, um torcedor vestindo a camisa do clube é assassinato em um ponto ônibus. Isso tem acontecido muito entre organizadas de CSA e CRB em Alagoas, por vingança. Recentemente, em um churrasco da torcida do Vila Nova [em Goiás], um cara de moto matou três torcedores, por vingança de um incidente anterior", discorre.

Uma reportagem recente do UOL Esporte coletou declarações de autoridade de Goiás que admitem que a recente explosão do número de assassinatos envolvendo torcedores organizados [11 mortes desde maio do ano passado] estava ligada a disputas do tráfico de drogas local.

BANIR TORCIDAS NÃO ADIANTA, DIZ AUTOR SOBRE SOLUÇÕES

O livro Violência no Futebol: Mortes de torcedores na Argentina e no Brasil reserva uma seção para debater possíveis caminhos para tratar o problema da violência entre torcidas, inclusive abordando como a legislação dos dois países analisados lida com a questão.

Na opinião do autor André Nery, a medida de banir facções organizadas de entrarem identificadas nos estádios não é eficaz contra o problema, em uma estratégia de médio e longo prazo.  

"Das alternativas já tomadas, extinguir torcida não resolve o problema. É um paliativo, no curto prazo resolve, mas no longo prazo pode ter o efeito contrario, até aumentar a violência. Creio que deveria existir um esquema de policiais infiltrados, para levantar quem anda armado, como é a operação, além de uma policia especializada na internet, monitorar se vai ter confronto e quem são as pessoas que provocam organizam esses distúrbios", comenta.

Briga com torcedores em todo mundo
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